quinta-feira, 7 de Junho de 2012

Amadeo de Souza-Cardoso e a Festa do Corpo de Deus

A tradição da Festa de Corpus Christi, ou do Corpo de Deus, remota ao século XII, quando o Papa Urbano IV a instituiu por Bula Papal. Celebrada 60 dias após a Páscoa, esta festividade móvel pode ocorrer entre 21 de Maio e 24 de Junho. Caracterizada pela crença cristã de que o Sangue e o Corpo de Cristo se encontram de facto presentes na Eucaristia, esta solenidade assume-se como um testemunho e veneração de um dos principais Sacramentos da Igreja Católica. 
Em Portugal os relatos sobre a celebração do Corpo de Deus remontam ao reinado de D. Afonso III, sendo porém no reinado de D. Dinis que a festa é por assim dizer oficializada. Como de costume em terras portuguesas, esta celebração cedo começou por assimilar um lado profano ao seu lado sagrado. Nas famosas procissões perfilavam representantes das várias profissões, com carros alegóricos, diabos, a serpe cornuda, a terrível coca ou dragão derrotado por S. Jorge, os gigantones, entre outros elementos. A música assume-se ainda hoje como um factor importante da celebração mais profana desta festa. Das gaitas-de-foles e tambores, aos sinos a repique, ou às famosas bandas filarmónicas, várias são as tradições que podemos encontrar de região em região.
Amadeo de Souza-Cardoso, célebre pintor modernista português natural de Amarante, imortalizou uma dessas procissões a que assistiu na sua terra natal, em Junho de 1913. Entre a estética cubista que acompanhava a sua expressão plástica durante aquele período, conseguimos aperceber-nos dos elementos caracterizadores da expressão mais visível e popular da festa do Corpo de Deus, ou seja, a Procissão Corpus Christi, que de resto dá nome ao próprio quadro do artista amarantino. Das figuras eclesiásticas com os seus paramentos, passando pela fanfarra, os fieis, a coca e o cavaleiro S. Jorge, aos próprios arcos da famosa ponte de Amarante que nos ajudam a localizar o espaço em que decorre a acção narrada no quadro, tudo perpetua o lado efémero da festa.
Uma vez mais, temos a tradição de mãos dadas com a modernidade, numa comunhão perene, cujos novos ciclos insistem em eternizar. Assim é Portugal e a sua tradição.

Procissão Corpus Christi, óleo sobre madeira pintado em 1913 por
Amadeo de Souza-Cardoso.

3 comentários:

  1. "a terrível coca" é uma referência ao barco de uma só haste?

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  2. Viva Filipe!

    A coca é o nome dado em algumas regiões do país ao dragão derrotado por S. Jorge. A informação disponibilizada pela wikipedia não é particularmente boa, mas permite-te ficar com uma ideia sobre o que ela é e aquilo que representa.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Coca_(folclore)

    Um abraço Português,

    NCP

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  3. Desconhecia a origem das festas... Um texto muito interessante. Posso sugerir/pedir que pense num texto um pouco mais extenso sobre este mesmo assunto? :)

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